sábado, 10 de julho de 2010

ISSO É CONHECIMENTO

As comunidades negras jamaicanas (garveytas), formadas na decada de vinte, encaravam a África como a terra prometida, em especial a Etiópia, por tratar-se de um Império africano milenar jamais colonizado e responsavel pela preservação de uma cultura sem grandes influencias europeias. A Etiópia que possui cerca de cem dialetos e o aramaico como lingua oficial, também reividica uma ancestralidade bíblica pois afirmam que seus reis são descendentes da união da rainha etíope Makeda de Sabá com o Rei Salomão de Jerusalem, filho do Rei Davi, dessa união teria nascido Menelik I (também chamado de Davi, na Etiópia) e a partir de então surgiria a dinastia salomânica em terras etíopes.
Os textos bíblicos apresentam o rei Salomão como um dos antepassados de Jesus Cristo e o livro etíope Kebra Nagast relata o encontro do Rei de Jerusalem com a rainha de Sabá e consequentemente a origem da árvore genealógica do maior imperio africano de todos os tempos, Etiópia, antiga Abissínia (também chamada de Axum e Cush) a única nação da África citada em todas as versões da Bíblia.
O kebra Nagast é considerado um texto sagrado tanto para os cristãos ortodoxos da Etiópia quanto para os rastafaris jamaicanos. Segundo conta sua historia, a rainha Makeda (também chamada de Balkis ou Belkis) de Sabá (Sul), rainha da Etiópia, sabendo da existência de um sabio rei de Jerusalem, profundo conhecedor das leis divinas, resolveu visitá-lo para conhecer sobre seu reinado e suas convicções religiosas.
A rainha foi recepcionada no palácio de Salomão, que a introduziu na crença de um Deus único e nos princípios da fé judaica. O rei de Jerusalem gostaria de passar a noite com a rainha virgem e ter com ela uma relação sexual, mas esta recusou o convite, porém Salomão propôs um acordo onde ela nao poderia fazer uso de nenhuma riqueza sua. Acreditando ser bastante rica e poderosa, a rainha de Sabá não tinha dúvidas de que não precisaria das riquezas materiais do rei, porém antes de dormir, Salomão ordenou para que seus empregados colocassem bastante sal no jantar da rainha, colocando também uma jarra d´agua na cabeceira de sua cama. Na madrugada, Makeda sentiu sede e bebeu a água, o rei levantou-se e afirmou que ela havia consumido um grande tesouro de seu reino e perguntou se a rainha de Sabá conhecia riqueza maior do que a água. Ambos se apaixonaram e deste encontro a rainha voltou grávida para a Etiópia, deixou animais raros e obras de arte que com muito custo havia carregado com sua caravana ao longo da árdua travessia do Oriente Médio e retornou a África com um presente histórico: O anel que trazia a marca do leão, simbolo da tribo de judá, também da família de Salomão. Seu filho Ebna cresceu sem saber sobre a identidade de seu pai e ao tornar-se adulto conheceu através da sua própria rainha. Ebna foi coroado e nomeado Menelik I e viajou para Jerusalema a fim de encontrar com seu pai. No primeiro momento Salomão duvidou da veracidade de sua paternidade, mas com o passar do tempo sentiu afinidade com o rapaz e ao ver o antigo anel no dedo de Menelik I reconheceu a sua descendência. A partir de então, o rei conviveu com Menelik I e entregou grandes segredos de Jerusalem ao jovem Etíope.
Salomão passava por dificuldades em sua terra natal e confiou-lhe a Arca da Aliança, contendo os dez mandamentos originais de moisés; Menelik I por ordem de seu pai levou as "Tábuas de Moisés" para a Etiópia e fez essa viagem acompanhado por doze mil israelenses judeus. Segundo a Igreja Ortodoxa Copta da Etiópia, a arca mantém-se lá ainda nos dias de hoje e é vigiada e contemplada, por um único sarcedote, que dedica toda sua vida para guardá-la, sendo substituido durante as gerações.
Dessa forma nasceu a dinastia de Salomão na Etiópia, através de uma grande linhagem de reis com laços sanguineos que veio a suceder-se e atualmente no dia da comemoração do Arcanjo São Miguel, os cristãos etíopes desfilam pelas ruas do país com replicas da Arca da Aliança, também chamada de Arca da Convenção.
A dinastia que nasceu com Menelik I, filho do rei Salomão com a rainha de Sabá, introduziu a tradição judaica na Etiópia e desde então o Leão de Judá tornou-se símbolo da família real. Dessa família uma sucessão de reis se desenrolou, recebendo títulos Bíblicos como Salomão, Jacó, Davi, entre outros e no quarto século da era cristã a família real se converteu ao cristianismo ortodoxo, por influência dos egípcios, fundando a Igreja Ortodoxa Copta da Etiópia, no mesmo século em que surgia a Igreja Católica Apostólica Romana, com algumas diferas doutrinárias.
Os Etíopes afirmam que a Arca da Aliança, contendo os dez mandamentos originais de moisés permanece na África por solicitação do próprio rei Salomão, já a igreja católica romana afirma que os dez mandamentos se perderam ao longo da história e não reconhece nenhuma outra versão. Além disso, segundo os ortodoxos egípcios, etíopes, assim com os armênios, a pessoa de Jesus Cristo, embora tenha sido um homem encarnado, apresentava uma única natureza estritamente divina e apenas em 1504 no Concílio da Calcedônia declararam a sua crença Monofisista (uma única natureza fisica de Jesus) e se distanciaram da crença romana que supõe duas naturezas, a humana e a divina, convivendo simultaneamente na personalidade de Cristo.
Durante séculos, os reis e rainhas da Etiópia mantiveram a tradição unicamente judaica, até a conversão de Frumêncio ao cristianismo. Este havia sido um escravo da corte de Axum (Etiópia) e por sua vocação ao estudo, havia conquistado a confiança do rei, tornando-se ele mesmo o secretario particular do monarca e responsável pela educação de seus filhos.
No século IV, mesmo século em que surgia a instituição católica apostólica romana, os egípcios (também chamados de coptas) cristãos realizavam suas práticas religiosas (jejum e oração) no deserto do Egito e eram conhecidos como padres do deserto, entre eles estavam Antão e Atanásio (mais tarde considerados santos). Frumêncio após ganhar a liberdade, visitou o Egito e tornou-se um dos mais dedicados discípulos de Atanásio, recebeu dos cristãos coptas o título de Aba (Pai) Salama (Portador da Luz) e voltou para Axum como o primeiro bispo da Etiópia, também chamado de "Inicio da luz". Canonizado e conhecido hoje como São Frumêncio, fundou, por incentivo de Atanásio, a Igreja Ortodoxa Copta da Etiópia que passou a fazer parte das Igrejas Orientais. A partir de então os reis e etíopes da dinastia de Salomão passaram a se identificar como reis cristãos ortodoxos e São Jorge foi escolhido o padroeiro da nação.
Outros episódios marcam a entrada do cristianismo na história da lendaria Abissínia, mesmo antes do surgimento da Igreja Ortodoxa. Dizem que o apóstolo Mateus foi viver na Etiópia após a morte de Jesus, a fim de evangelizar os africanos e ao chegar lá atraiu um grupo formado em sua maioria por mulheres, liderada pela Princesa Ifigênia. O rei da Etiópia, indignado com a postura da filha que havia negado o convite de casamento de um poderoso príncipe africano, solicitou a ajuda de Mateus, por considerar sua forte influência sobre a princesa. O Apóstolo então respondeu que sua ajuda consistiria em respeitar a vontade de Ifigênia (que não queria se casar) e por esse motivo o rei ordenou que Mateus fosse assassinado.
A princesa escondeu-se com suas companheiras durante muitos anos, dedicou sua vida ao cristianismo e aos ensinamentos de Mateus, fundou o primeiro convento da Etiópia, ainda nos primeiros anos da era cristã e é atualmente conhecida em todo o mundo, até mesmo entre os católicos romanos, como a Santa Ifigênia , a primeira santa negra da história.
Também acreditasse na Etiópia que o apóstolo Filipe, anos após a morte de Jesus, recebeu um chamado divino e caminhou por Jerusalem na direção Sul, encontrando com um eunuco etíope, tesoureiro e ministro da rainha Candence da Etíopia, que chegava em Jerusalem a fim de estudar as escrituras bíblicas. O eunuco lia um trecho do texto de Isaías do antigo testamento (que falava da vinda do messias) e não compreendia a passagem da bíblia. Filipe então contou-lhe a vida de Jesus, dizendo tratar-se da confirmação das palavras proféticas de Isaías. Enquanto percorriam um longo caminho se depararam com um rio, onde o etíope pediu para ser batizado, Filipe então realizou seu pedido e assim o eunuco, até então judeu, levou sua nova crença cristã para a Etiópia convertendo a Rainha Candace.
Com o surgimento da Igreja Ortodoxa na Etiópia, os reis começaram a responder pelo Estado, pelas forças armadas, sendo também líderes da Igreja. Por discordar de certos dogmas católicos, o imperador etíope passou a substituir a figura do papa, recebendo títulos de suma importância. Ao longo da história, os imperadores da Etiópia receberam nomes como Yeshua (Jesus) I, II, III e IV, assim como Newaya Kristos, Yohannes (João) I, II, III e IV, entre outros. Além disso, o detentor do trono etíope era presenteado com o manto escarlate bordado a ouro, o cetro, duas lanças de ouro e o anel de diamante com a figura do Leão de Judá (que afirmavam ser o anel legítimo de Salomão dado a seu filho etíope Menelik I), num ritual repleto de simbolismo e ministrado pelo arcebispo da igreja ortodoxa.
Quando em 1930, Ras Tafari foi coroado imperador da Etiópia, passou a se chamado pelo nome de Haile Selassie I, que em aramaico significa Poder da Trindade. Para os jamaicanos, a coroação de Selassie I, sua ascendência bíblica e seus títulos divinos (Rei do reis, Senhor dos senhores e Leão Conquistador da Tribo de Judá), afirmavam a profecia de Marcus Garvey sobre a vinda do rei negro e assim como os seguidores de cristo ficaram conhecidos como cristãos, desde então os seguidores de Ras Tafari foram identificados como os rastafaris.
Ras tafari foi 225º descendente de sua dinastia e na Jamaica varios pregadores se popularizam por afirmar a fe em sua divindade. Assim, estabeleceram-se diversas vertentes nas montanhas Jamaicanas, fazendo do movimento rastafari um grupo eclético, com rituais e regras variadas, sendo portanto, curiosamente um dos unicos fenomenos religiosos relativamente sem liderança. O papel de Marcus Garvey e Ras Tafari, assim como outros simbolos especificos geraram uma especie de versatilidade religiosa para o rastafarianismo.
Para muitos rastas, Haile Selassie I representa a unica e definitiva vinda do messias, salvador da humanidade e se distanciaramdo simbolismo de Jesus por sua imagem e propaganda européia, para outros, Ras Tafari é a volta de Jesus Cristo, enquanto diversas comunidades rastafaris surgiam com opiniões distintas e em algumas delas seus lideres eram tambem venerados. A partir de então algumas segmentações começaram a ocorrer no movimento, embora diversos traços culturais em comum possam ser encontrados até os dias de hoje.

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